I started this piece as a free exercise to get back to drawing without screens, references, planning, or sketches, using only the visual memory of things. Besides being an exercise that helps restore focus, it’s one of my favorites to do.
What was supposed to be just a simple exercise started to take shape, and the text that was meant to merely explain the process turned into a narrative, illuminating (or perhaps further confusing) the scenes, symbols, and characters. I named it ‘Drops on the Roof.’
Although it may seem chaotic, like doodles or just a ‘search and find’ illustration, most of the details have their own meaning. Putting all these elements on the same page is the way I found to try to weave a unique sense.

I. From top to bottom, starting from the backyard that always wears a scowl, a long street descends to an unwanted call from an abandoned payphone by the coast. On the other side, a woman disembarks with a heavy suitcase, sliding down the conveyor belt, and when she arrives at my house, she says the term “emotional garbage container,” which makes me laugh. Inside the suitcase, she brings parts of a miniature airplane and builds a floating bridge with them. Below, a handsome young man holds the A Walk to Remember tape, already rewound.
I. De cima para baixo, partindo do quintal que está sempre de cara fechada, desce uma longa rua até uma ligação indesejada de um orelhão abandonado no litoral. Do outro lado, uma mulher desembarca com uma mala pesada, que escorre pela esteira, e quando chega na minha casa casa, fala o termo “caçamba de lixo emocional“, o que me faz rir. Na mala, traz partes de um avião em miniatura e constrói uma ponte flutuante com elas. Abaixo, um belo rapaz com a fita de O Amor para Recordar, já rebobinada.

II. From the door, I see her back, under a green neon light, almost touching the cover of Hatful of Hollow, stuck on the wall. I can’t even count how many months have passed since our last conversation, her new hair looks really nice. It’s raining. Water runs over almost everything in the punk bar of the haunted house, coming from a higher spot, dripping onto the burger grill, the pallet tables, the open fridge where someone dropped a beer bottle. The tile, which needs to be placed on the lot, is cracked and the gutter pipe is clogged with a USB cable. Two days later, the smell of school lunch near the volleyball court transports me back to the plastic cup where juice was served in second grade, and the taste of industrialized powder fills my mouth with thirst
II. Da porta, a vejo de costas, sob uma luz neon verde, quase encostando na capa de Hatful of Hollow, colada na parede. Não consigo nem contar quantos meses se passaram desde a última conversa, o cabelo novo ficou muito bonito. Chove. A água escorre por quase tudo no bar punk da casa mal-assombrada, a água vem de um ponto mais alto, caindo na chapa do hambúrguer, nas mesas de paletes, na geladeira aberta, onde alguém deixou cair uma piriguete. A telha, que precisa ser colocada no terreno, está furada e o cano da calha está entupido com um cabo USB. Dois dias depois, o cheiro da merenda perto da quadra do vôlei me transporta para a caneca de plástico em que serviam suco na segunda série, e o gosto de pó industrializado enche minha boca de sede.

III. Stuck in the mug, the boy sends his cousins to fetch the house keys that were left in a building in Guarulhos. He explains the coordinates and assures them there won’t be a problem if the building is on fire, because a future version of one of them performed a padê to ensure the safety of the mission. They return with the keys but get tangled and end up hanging from the ropes, like almost everyone in their family
III. Preso na caneca, o menino manda os primos buscarem as chaves de casa que ficaram em um prédio em Guarulhos. Explica para eles as coordenadas e que não haverá problema se o prédio estiver pegando fogo, porque a versão de um deles no futuro fez um padê para garantir a segurança da missão. Eles voltam com as chaves, mas se embananam e ficam pendurados nas cordas, como quase todo mundo da família deles.

IV. A lot of things tangling up like a knot in my head during the walk. Three possible paths, all under the power towers. Near them still lives a schoolmate who used to compulsively draw Super Saiyan Goku from the packaging of one of the action figures he had received. On the way up, I saw an old lady being told by an old man that a person can be the richest in the world, but if they don’t have God in their heart, there’s an emptiness in their chest. While I was making coffee, I kept thinking that I wanted to have a house with a tree in the yard… Besides that, I wondered: why, even with headphones on, did I catch that particular phrase? Do I not have God in my heart, or did that old man somehow know I was struggling and was trying to comfort me?
IV. Um monte de coisa se embolando feito um nó na cabeça durante a caminhada. Três caminhos possíveis, todos por debaixo das torres de energia. Perto delas ainda mora um colega da escola que desenhava compulsivamente o Goku Super Saiyajin da embalagem de um dos bonecos que ele tinha ganhado. Na subida, vi uma senhora ouvindo de um senhor que a pessoa pode ser a mais rica do mundo, mas se não tem Deus no coração, tem um vazio no peito. Enquanto eu passava um café, fiquei pensando que queria ter uma casa com uma árvore no quintal… Além disso, me perguntei: por que, mesmo com fones de ouvido, eu peguei justo essa frase? Será que eu não tenho Deus no coração ou aquele senhor sabe que eu estou lascado e tentava me consolar?

V. Sitting on the sidewalk, either alone or with the neighbors. Sometimes, she sleeps, even when she’s not alone. The sidewalk here is the base of an industrial sewing machine, representing the profession that shaped her in the world, as a woman and as an individual. While I watched the notebooks spinning in the classroom, she was sewing. While I looked at the photos in my grandmother’s binoculars, of people I didn’t know, she was also sewing… Drawing like this, with a very fine tip, like needles that stitch one thing to another, from there to here, is a tribute to her. A way to anchor her in my symbolic world, so that she never leaves. Here, I join it with a yellow light lantern I have in my room, makeshift, and then I turn it off.
V. Sentada na calçada, sozinha ou na companhia dos vizinhos. Às vezes, dorme, mesmo estando acompanhada. A calçada aqui é uma base de máquina de galoneira, representando a profissão que a constituiu no mundo, como mulher e como sujeito. Enquanto eu via os cadernos girando na sala de aula, ela costurava. Enquanto eu observava as fotos nos binóculos da minha avó, de pessoas que eu não sabia quem eram, ela também costurava… Desenhar assim, com a ponta bem fina, como agulhas que juntam uma coisa na outra, de lá para cá, é uma homenagem a ela. Uma maneira de prendê-la no meu mundo simbólico, para que nunca vá embora. Aqui, eu emendo uma lanterna que tenho no quarto, improvisada, com luz amarela, e então a apago.

VI. I wished that the paper stand would clean the house for me, instead of lingering in my mind while I try to do the household chores. The amount of dust that comes from the avenue is overwhelming. There could be a button that opened a hidden passage in the false floor of the balcony, so I could spend a few days without thinking about anything. Or maybe headphones, like those hats from the band DEVO, that could silence my mind for a while… But then, out of nowhere, I see a friend who used to work with car windows in high school. This time, he walks by with a mirror, one of those with an orange border sold at the fair, reflecting back at me all the chores I still need to do at home.
VI. Queria que o suporte da folha limpasse a casa por mim, ao invés de ficar na minha cabeça enquanto eu tento fazer as tarefas domésticas. É cavernoso a quantidade de pó que vem da avenida. Podia existir um botão que abrisse uma passagem no piso em falso da varanda, para eu poder passar alguns dias sem pensar em nada. Ou talvez um fone, tipo aqueles chapéus da banda DEVO, que calasse minha cabeça por um tempo… Mas aí, do nada, vejo um amigo, que no ensino médio trabalhava com vidros de carro. Dessa vez, ele passa com um espelho, daqueles de borda laranja que vende na feira, e me reflete todas as tarefas que eu ainda tenho que fazer em casa.

VII. Remember I mentioned that the water came from above? It’s still coming from that frowning yard. The water, when it touches, seems to both poison and reveal the outlines of the shadows of the people who have passed by. In managing these shadows, I try to learn to have at least some control, without falling back on the instinct of drawing wooden boards to block its entry. But at the same time, without letting the water completely invade every door, window, and open path…
VII. Lembra que eu mencionei que a água vinha de cima? Ainda vem daquele quintal de cara fechada. A água, quando toca, parece envenenar e, ao mesmo tempo, revelar os contornos das sombras das pessoas que passaram por ali. Nessa condução das sombras, tento aprender a ter um mínimo de controle, sem recair no instinto de desenhar placas de madeira para bloquear sua entrada. Mas, ao mesmo tempo, sem deixar que a água invada por completo toda porta, janela e caminho aberto…


